03/03/2026

A Rebeldia dos Fios e das Cores

A Rebeldia dos Fios e das Cores

Há quem diga que batom vermelho é apenas cor.
Eu digo que é voz.

Cada vez que desliza nos lábios, ele conta histórias de coragem, de rebeldia, de escolhas que não cabem nos moldes da televisão ou do cinema.
Ousadia que não pede licença

O cabelo crespo pintado de vermelho, o grisalho que insiste em brilhar — tudo isso fala por mim, antes mesmo que eu diga uma palavra.
E é nessa linguagem silenciosa que descubro: ser mulher é também narrar a própria liberdade.

Era uma tarde qualquer quando percebi que minhas amigas, uma a uma, começavam a colecionar batons neutros. Tons discretos, quase invisíveis, como se a boca fosse apenas um detalhe. Eu, ao contrário, segurava firme o meu vermelho intenso — aquele que não pede licença para entrar na sala. Uma delas chegou a comprar um batom neutro para mim, como se quisesse me salvar da ousadia. Mais tarde, quando decidi assumir o grisalho, vinham as sugestões: “essa tinta não dá alergia”, “essa cor rejuvenesce”. Mas eu já havia escolhido — cada fio prateado seria medalha, não disfarce.

O cabelo crespo, pintado de vermelho, sempre foi meu companheiro de ousadia. Enquanto a televisão insistia em mostrar que a “mocinha” tinha fios lisos e comportados, eu caminhava pelas ruas com ondas indomáveis, como quem desafia silenciosamente o roteiro. 
Raiz e resistência em cada fio

Confesso que só ontem percebi como as personagens carregam essas nuances: nunca assisti novelas e filmes olhando para o uso das cores e da maquiagem. Agora entendo que não é acaso — é linguagem.

A dramaturgia e o cinema ainda tentam nos enquadrar: a vilã maquiada demais, a heroína discreta, a rebelde marcada pelo exagero. Mas eu aprendi que não há exagero em ser inteira. Viola Davis, Taís Araújo, Glenn Close, Jane Fonda, Regina King — tantas mulheres que, como eu, decidiram que cabelo, maquiagem e idade não são rótulos, mas declarações de liberdade.

E assim sigo, narrando minha própria história. O batom vermelho é coragem, o crespo é raiz, o grisalho é sabedoria. Cada escolha estética é um ato de resistência contra os moldes que tentam nos aprisionar. Porque ser livre é isso: escrever a própria crônica, sem pedir autorização ao espelho, à novela ou ao cinema.


“Entre o vermelho, o crespo e o grisalho, eu escolhi ser inteira.”






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