O silêncio que atravessa gerações
O casamento infantil e o abuso de meninas não acontecem apenas por imposição externa. Muitas vezes, são reproduzidos dentro das próprias famílias, como se fossem parte inevitável da vida.
A avó foi casada cedo. A mãe foi abusada e silenciada. A filha é entregue ao mesmo destino. Esse ciclo não é fruto de escolha, mas de uma herança cultural de dor.
A cultura que disfarça o abuso
Em muitas comunidades, o casamento precoce é visto como “proteção” ou “garantia de futuro”. Mas, na prática, é a institucionalização da violência.
- Tradição: “Sempre foi assim” é a frase que legitima o abuso.
- Economia: famílias pobres acreditam que casar a filha cedo é aliviar um peso financeiro.
- Moralidade: em alguns contextos, a virgindade da menina é tratada como patrimônio da família, e o casamento precoce é visto como forma de “preservar a honra”.
Essas justificativas escondem a realidade: meninas são privadas da infância e entregues a relações desiguais, onde o abuso é normalizado.
O trauma invisível das mães
Muitas mulheres que foram abusadas na infância não reconhecem o abuso em si mesmas. Cresceram acreditando que era “normal” ser silenciada, violentada ou obrigada a obedecer.
Esse trauma invisível faz com que, ao se tornarem mães, reproduzam o mesmo destino para suas filhas, sem perceber que estão perpetuando a violência.
É como uma ferida que nunca cicatriza e continua sangrando através das gerações.
Dados que revelam o ciclo
- O Brasil registrou mais de 87 mil casos de violência sexual infantil em 2024, o maior número da série histórica.
- O Censo mostra que 34 mil meninas entre 10 e 14 anos vivem em união conjugal.
- Em 2022, foram contabilizados 4.041 feminicídios.
Esses números não são desconexos. Eles revelam um fio condutor: meninas abusadas se tornam mulheres vulneráveis, e mulheres vulneráveis vivem em um país que tolera a violência até o ponto da morte.
Romper o ciclo
Romper esse ciclo exige consciência coletiva.
- Reconhecer que o casamento infantil é abuso, não tradição.
- Entender que proteger a filha é também curar a mãe.
- Denunciar práticas que silenciam meninas e perpetuam a violência.
Cada vez que uma mulher abre os olhos para sua própria história, ela ganha força para proteger sua filha. E cada vez que uma filha é protegida, uma geração inteira é salva.

Jéssica Rodrigues da Costa, 31 anos e grávida de sete meses, Paranaguá/PR
A ponte para o feminicídio
O casamento infantil não é apenas um crime contra a infância. É uma herança de dor que atravessa gerações.
Romper esse ciclo é mais do que proteger meninas: é curar mulheres e transformar a cultura.
Porque quando uma mãe diz “não” ao abuso, ela não apenas protege sua filha — ela protege todas as que virão depois.








