A Rebeldia dos Fios e das Cores
O cabelo crespo pintado de vermelho, o grisalho que insiste em brilhar — tudo isso fala por mim, antes mesmo que eu diga uma palavra.
E é nessa linguagem silenciosa que descubro: ser mulher é também narrar a própria liberdade.
Era uma tarde qualquer quando percebi que minhas amigas, uma a uma, começavam a colecionar batons neutros. Tons discretos, quase invisíveis, como se a boca fosse apenas um detalhe. Eu, ao contrário, segurava firme o meu vermelho intenso — aquele que não pede licença para entrar na sala. Uma delas chegou a comprar um batom neutro para mim, como se quisesse me salvar da ousadia. Mais tarde, quando decidi assumir o grisalho, vinham as sugestões: “essa tinta não dá alergia”, “essa cor rejuvenesce”. Mas eu já havia escolhido — cada fio prateado seria medalha, não disfarce.
O cabelo crespo, pintado de vermelho, sempre foi meu companheiro de ousadia. Enquanto a televisão insistia em mostrar que a “mocinha” tinha fios lisos e comportados, eu caminhava pelas ruas com ondas indomáveis, como quem desafia silenciosamente o roteiro.
A dramaturgia e o cinema ainda tentam nos enquadrar: a vilã maquiada demais, a heroína discreta, a rebelde marcada pelo exagero. Mas eu aprendi que não há exagero em ser inteira. Viola Davis, Taís Araújo, Glenn Close, Jane Fonda, Regina King — tantas mulheres que, como eu, decidiram que cabelo, maquiagem e idade não são rótulos, mas declarações de liberdade.
E assim sigo, narrando minha própria história. O batom vermelho é coragem, o crespo é raiz, o grisalho é sabedoria. Cada escolha estética é um ato de resistência contra os moldes que tentam nos aprisionar. Porque ser livre é isso: escrever a própria crônica, sem pedir autorização ao espelho, à novela ou ao cinema.









