06/03/2026

O verdadeiro sentido do Dia Internacional da Mulher

 Sororidade e o Verdadeiro Sentido do Dia Internacional da Mulher

Da dor à resistência: a história de lutas que nos convoca à união

O Dia Internacional da Mulher, celebrado em 8 de março, não nasceu de homenagens superficiais, mas da dor e da luta. É uma data que carrega a memória de mulheres que morreram em fábricas, em protestos e nas mãos da violência, e que nos convoca à resistência e à união.


 As raízes históricas do 8 de março

Em 1911, um incêndio na fábrica Triangle Shirtwaist, em Nova Iorque, matou mais de 140 mulheres operárias. Elas estavam trancadas dentro do prédio, sem rotas de fuga, porque os patrões temiam que saíssem para descansar. Jovens, muitas imigrantes, reivindicavam jornadas dignas e salários justos. Suas mortes se tornaram símbolo da exploração e da urgência de mudança.

Poucos anos depois, em 1917, mulheres russas foram às ruas exigir pão e paz, enfrentando repressão e marcando a história da Revolução. Esses episódios revelam que o 8 de março é um marco de resistência, não de flores.

Em 1977, a ONU oficializou o Dia Internacional da Mulher, transformando-o em símbolo global de luta por igualdade de gênero.


A origem da sororidade

O termo sororidade vem do latim soror, que significa “irmã”. Ele surgiu em contextos acadêmicos e feministas para expressar a ideia de solidariedade entre mulheres, como contraponto ao individualismo e à rivalidade incentivados pela sociedade patriarcal.

Na década de 1970, com a expansão dos movimentos feministas, o conceito ganhou força como prática política e social: mulheres se reconhecendo como parte de uma mesma luta, apoiando-se mutuamente contra desigualdades e violências. Hoje, sororidade é entendida como uma postura ética e afetiva que busca acolhimento, escuta e união, transformando experiências individuais em força coletiva.


O desafio atual: violência e desigualdade em 2025

Mais de um século depois das primeiras manifestações, ainda vemos mulheres sendo silenciadas, violentadas e mortas. E, pior, há quem defenda ou relativize essas violências, como se a vida feminina fosse menos valiosa.

Os números confirmam essa realidade:

  • 28% das brasileiras já sofreram algum tipo de agressão ao longo da vida.
  • 3,7 milhões de mulheres (7%) foram vítimas de violência apenas nos últimos 12 meses.
  • Em 70% dos casos de agressão havia testemunhas, mas apenas 29% dos adultos presentes ajudaram a vítima.
  • Homicídios femininos permanecem em patamar elevado: em 2023 foram 3.903 casos, e o Atlas da Violência 2025 mostra estagnação das taxas, com aumento da letalidade contra mulheres negras.

A violência não é apenas física: ela se manifesta também na exclusão econômica e política.

  • Salários: Mulheres recebem em média 21,2% menos que homens no setor privado.
  • Cargos de poder: Embora representem 43% da força de trabalho, continuam minoria nos cargos de liderança.
  • Base da pirâmide: Entre os 10% de trabalhadores com menores salários, 55% são mulheres, evidenciando concentração na precariedade.
  • Impacto racial: Mulheres negras enfrentam as maiores desigualdades, tanto em remuneração quanto em acesso a cargos de decisão.

Mulheres como propriedade: uma herança histórica


Além da violência física e da desigualdade econômica, há uma herança histórica que ainda pesa sobre as mulheres: a ideia de que elas seriam propriedade dos homens. Essa concepção remonta às sociedades patriarcais, em que a posse da terra e dos bens se estendia também às mulheres, vistas como parte do patrimônio familiar.

Durante séculos, o casamento foi tratado como uma transação de propriedade, em que a mulher passava da tutela do pai para a do marido. Essa lógica de posse deixou marcas profundas na cultura e ainda hoje se manifesta em comportamentos abusivos, no controle sobre a vida feminina e na violência doméstica.

A filósofa Silvia Federici, em obras como O Patriarcado do Salário e Calibã e a Bruxa, mostra como o capitalismo reforçou essa estrutura ao transformar o corpo e o trabalho das mulheres em extensão da propriedade masculina. Para ela, compreender essa origem é essencial para entender por que tantas mulheres ainda são tratadas como objetos de domínio e por que a luta pela sororidade e pela igualdade é tão urgente.


Sororidade na prática

  • Apoio mútuo: mulheres que se unem para denunciar violências e oferecer acolhimento às vítimas.
  • Escuta ativa: criar espaços seguros onde experiências podem ser compartilhadas sem julgamento.
  • Fortalecimento coletivo: incentivar a presença feminina em espaços de poder e liderança.
  • Resistência cultural: romper com narrativas que normalizam ou justificam agressões.

Redes de apoio às mulheres no Brasil

A sororidade também se materializa em iniciativas concretas. No Brasil, diversas organizações e programas oferecem acolhimento e suporte às mulheres:

Essas iniciativas mostram que nenhuma mulher está sozinha. Apoiar e divulgar essas redes é um ato de sororidade que pode salvar vidas.

Transformemos a dor em força, e a força em mudança. Cada mulher precisa ser voz ativa contra a violência, a desigualdade salarial e a exclusão dos espaços de poder. Unidas na luta, somos mais fortes.




04/03/2026

Ainda precisamos falar sobre a violência contra a mulher

 

Ainda precisamos falar sobre a violência contra a mulher

Às vésperas do 8 de março

Estamos chegando perto do Dia Internacional da Mulher. Uma data que deveria ser de celebração, mas que, para mim, é também um lembrete doloroso: ainda precisamos falar sobre a violência contra nós.

Hoje acordei com a notícia de que o feminicídio aumentou. Se antes eram quatro mulheres assassinadas por dia, agora são quase seis. Seis vidas arrancadas, seis histórias que não vão mais se cumprir. E atrás de cada uma dessas mortes, há filhos que ficam órfãos. Em 2025, foram mais de 1.600 crianças. Quatro por dia. É como se a violência contra a mulher tivesse o poder de roubar não só a mãe, mas também o futuro das crianças.


Nos bastidores do poder
E como se não bastasse, vemos casos como o do banqueiro Daniel Vorcaro. Festas luxuosas, convidados filmados e depois chantageados. Mulheres estrangeiras usadas, sem sabermos sequer o destino delas. Esse silêncio sobre o que aconteceu com elas é, por si só, uma violência.

É duro perceber que a exploração feminina não está só nas ruas ou nas casas. Ela se infiltra nos corredores do poder, nos negócios milionários, nos jogos de chantagem. A violência contra mulheres tem muitas faces, mas todas deixam marcas profundas.

Violência que atravessa fronteiras

Ontem, sessenta meninas iranianas morreram em uma escola. Sessenta futuros apagados em um só dia. E eu penso: não importa se é aqui, no Brasil, ou lá fora, em um país distante. A violência contra mulheres e meninas é global. Ela atravessa culturas, religiões, fronteiras. Sempre com o mesmo resultado: vidas interrompidas, sonhos roubados, silêncios impostos.



Em memória das mulheres que não deveriam ter partido



Stephanie da Silva, 26 anos - Sapopemba/SP - 01/03/2026
Eronildes Alves das Neves, 64 anos - Orlândia/SP - 02/03/2026
Mariana Alonso, de 25 anos - Sta Cruz do Sul/RS - 03/03/2026
Flávia Cunha, 42 anos - Divinópolis/MG - 03/03/2026

Seus nomes permanecem como alerta e memória.

Quando uma mulher morre, não é só ela que se vai. São filhos que ficam órfãos, famílias despedaçadas, comunidades em silêncio. Quando meninas morrem em uma escola, é o futuro inteiro que se apaga. Quando mulheres são exploradas em festas de poderosos, é a dignidade que é sequestrada.

Essas violências não estão em manchetes frias. Elas estão diante de nós, pedindo que não desviemos o olhar. Porque cada silêncio é cúmplice, e cada palavra pode ser resistência.

No dia 8 de março, não basta celebrar. É preciso lembrar, denunciar e resistir.

Calar nunca será uma opção.



03/03/2026

A Rebeldia dos Fios e das Cores

A Rebeldia dos Fios e das Cores

Há quem diga que batom vermelho é apenas cor.
Eu digo que é voz.

Cada vez que desliza nos lábios, ele conta histórias de coragem, de rebeldia, de escolhas que não cabem nos moldes da televisão ou do cinema.
Ousadia que não pede licença

O cabelo crespo pintado de vermelho, o grisalho que insiste em brilhar — tudo isso fala por mim, antes mesmo que eu diga uma palavra.
E é nessa linguagem silenciosa que descubro: ser mulher é também narrar a própria liberdade.

Era uma tarde qualquer quando percebi que minhas amigas, uma a uma, começavam a colecionar batons neutros. Tons discretos, quase invisíveis, como se a boca fosse apenas um detalhe. Eu, ao contrário, segurava firme o meu vermelho intenso — aquele que não pede licença para entrar na sala. Uma delas chegou a comprar um batom neutro para mim, como se quisesse me salvar da ousadia. Mais tarde, quando decidi assumir o grisalho, vinham as sugestões: “essa tinta não dá alergia”, “essa cor rejuvenesce”. Mas eu já havia escolhido — cada fio prateado seria medalha, não disfarce.

O cabelo crespo, pintado de vermelho, sempre foi meu companheiro de ousadia. Enquanto a televisão insistia em mostrar que a “mocinha” tinha fios lisos e comportados, eu caminhava pelas ruas com ondas indomáveis, como quem desafia silenciosamente o roteiro. 
Raiz e resistência em cada fio

Confesso que só ontem percebi como as personagens carregam essas nuances: nunca assisti novelas e filmes olhando para o uso das cores e da maquiagem. Agora entendo que não é acaso — é linguagem.

A dramaturgia e o cinema ainda tentam nos enquadrar: a vilã maquiada demais, a heroína discreta, a rebelde marcada pelo exagero. Mas eu aprendi que não há exagero em ser inteira. Viola Davis, Taís Araújo, Glenn Close, Jane Fonda, Regina King — tantas mulheres que, como eu, decidiram que cabelo, maquiagem e idade não são rótulos, mas declarações de liberdade.

E assim sigo, narrando minha própria história. O batom vermelho é coragem, o crespo é raiz, o grisalho é sabedoria. Cada escolha estética é um ato de resistência contra os moldes que tentam nos aprisionar. Porque ser livre é isso: escrever a própria crônica, sem pedir autorização ao espelho, à novela ou ao cinema.


“Entre o vermelho, o crespo e o grisalho, eu escolhi ser inteira.”